Diário do Alentejo

“A Voz do Operário”: O sindicalista Custódio Braz Pacheco

12 de fevereiro 2020 - 16:20

A rua principal de Vila Nova de Milfontes tem o nome dele. E com muita justiça. Custódio Braz Pacheco é um ilustre filho da terra. Destacado precursor do sindicalismo e do movimento operário em Portugal, já era um democrata republicano 30 anos antes da República. Em 1879 ele foi um dos principais fundadores e o primeiro redator do jornal “A Voz do Operário”, que está celebrando a bela idade de 140 anos.

 

Texto Luís Carvalho

Custódio Braz Pacheco nasceu em Vila Nova de Milfontes em 1828, no seio de uma família oriunda da vila de Odemira. Tornou-se operário na indústria tabaqueira em Lisboa. Este seria então o quarto maior setor industrial do País em número de trabalhadores. E um dos mais rentáveis. Mas as operárias e os operários que produziam essa riqueza não beneficiavam dela. Para além de salários de miséria, sofriam com péssimas condições de trabalho que precocemente lhes destruíam a saúde. Foram mesmo considerados à época como o setor profissional mais “desgraçado”, a par dos mineiros. Tinham que se defender e lutar por uma vida melhor. Foi nessa luta que Custódio Braz Pacheco se destacou, tornando-se, nas décadas de 1860 e 1870, o principal porta-voz dos operários tabaqueiros em Lisboa.

Segundo o testemunho de um dos seus camaradas, quando o “princípio associativo” da classe trabalhadora ainda não estava desenvolvido, “limitando-se este a poucas associações de socorro mútuo”, quando ainda havia trabalhadores que achavam normal os castigos que nas fábricas se aplicavam às crianças operárias, com palmatoadas “às dúzias” e “outras brutalidades repugnantes”, Custódio Braz Pacheco “ergue-se no meio da ignorância geral” e “dirige a palavra a seus companheiros, faz-lhes ver as conveniências da associação [...], anima-os e consegue vê-los agremiados”. Depois, nas lutas entre os operários tabaqueiros e o patronato, “os serviços por ele prestados foram imensos”. E muitas vezes “representou dignamente a classe” perante o governo.
O jornal “A Voz do Operário” nasceu no seio da organização sindical dos operários tabaqueiros de Lisboa. Foi na sequência da ação como sindicalista que Custódio Braz Pacheco surgiu como seu fundador e primeiro redator. Foi também o primeiro presidente do que é hoje a Sociedade de Instrução e Beneficiência A Voz do Operário, inicialmente criada para apoiar a publicação do jornal.

Democrata republicano Custódio Braz Pacheco faleceu no dia 5 de dezembro de 1883, aos 55 anos. Foi então apontado não apenas como “um dos iniciadores do movimento operário em Portugal”, mas também como “um dos mais devotados campeões da causa democrática” [republicana]. Em 1880 ele representou “A Voz do Operário” na “grande comissão da imprensa de Lisboa” para as comemorações do tricentenário da morte de Camões. Em 1882 foi delegado dos operários tabaqueiros de Lisboa ao 1.º Congresso das Associações Portuguesas. Estes dois eventos marcaram na altura uma importante afirmação dos ideais republicanos e democráticos.

Mas Custódio Braz Pacheco já ia percebendo a contradição de interesses entre os operários que viviam na pobreza, como ele, e os abastados dirigentes republicanos. Partiu para o congresso das associações na expectativa de que aí se levantasse “a magna questão do trabalho”, pois nele iriam participar Teófilo Braga e outros vultos republicanos, aos quais costumava ouvir “com prazer nos comícios populares”, pugnarem “pela emancipação dos trabalhadores”. Em vão. Limitaram-se a defender a criação de escolas para alfabetizar o povo. Não viram o resto...


Depois n’ “A Voz do Operário”, Custódio Braz Pacheco, falou no que faltava: “Parece-nos que não basta estabelecer escolas, [...] é da máxima necessidade diminuir as horas de trabalho e melhorar as condições económicas do proletariado, pois só assim, atingiremos ao fim desejado, do contrário, os nossos esforços serão infrutíferos e os operários continuarão na obscuridade como até hoje; porque é completamente impossível ao infeliz obreiro que vai para a oficina às 5 horas e meia da manhã e sai às 7 e meia da tarde ter tempo e vontade para frequentar escolas, e sossego de espírito para estudar”.

 

“A Voz do Operário”

“A Voz do Operário” é um jornal com esta tradição de “falar no que falta”... Apoiou a causa republicana durante a monarquia, propagou ideias socialistas já nesse tempo e na 1.ª República. Foi precursor na difusão do marxismo e do feminismo. Depois durante a ditadura esteve ligado à oposição democrática. E hoje fala de causas como o direito à habitação em Lisboa ou a defesa da paz no Médio Oriente. Fala de lutas pela igualdade e justiça social, sem esquecer a cultura e a inovadora educação de qualidade que é ministrada nas escolas d’ “A Voz do Operário”. Mantém uma edição mensal em papel (com 3500 exemplares) e inaugurou recentemente uma versão na Internet.

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