Diário do Alentejo

“Acho que o cante alentejano não soube valorizar o seu passado e presente e não soube projetar-se no âmbito da inscrição”

30 de dezembro 2023 - 08:00
Foto | D.R.Foto | D.R.

Paulo LimaAntropólogo, Coordenador da candidatura do cante alentejano a património da Unesco

 

A Câmara de Beja convidou-o para curador do programa de comemorações do 10.º aniversário da classificação do cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, que se comemora em 2024. Ao ter aceitado este convite, quais os principais objetivos que antecipa ver atingidos?

Considero, pessoalmente, uma honra, o convite endereçado pela Câmara de Beja, através do seu Centro Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, de fazer a curadoria do programa comemorativo dos 10 anos sobre a inscrição do cante alentejano na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. O nosso objetivo fundamental é, para lá da reflexão sobre o passado, o presente e o futuro deste bem, que estas comemorações possam contribuir para que o espírito da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, assim como do texto do dossiê apresentado por Portugal, regresse, criticamente, ao cante alentejano. Beja, pela sua história associada ao cante alentejano, com o papel de definidor do que é hoje esta manifestação, é o local certo para criar um outro caminho de pensamento e ação. Caminho que passe por um diálogo com o mundo, com outras manifestações vocais inscritas pela Unesco, que traga para o diálogo do cante as questões da paz, da solidariedade, da coesão social. Mas, também, as questões da sua relação com a economia, da promoção e sustentabilidade dos grupos corais, e que este “coro” inclua aqueles e aquelas que do cante fazem a base da sua criatividade. É este diálogo, entre uma convenção que valoriza a diversidade e a riqueza da criação humana com os valores éticos que sustentam o projeto, que o grupo de trabalho, aberto, pretende levar a cabo. Um grupo constituído por pessoas e instituições com diversos caminhos e tempos no cante, que terá a seu cargo levantar, não um programa comemorativo, mas, sim, uma estratégia que não se esgote em dezembro de 2024.

 

Considera que o cante alentejano “tem sabido”, ao longo destes nove anos, tirar o conveniente partido desta tão importante distinção?

Não. Acho que o cante alentejano não soube valorizar o seu passado, e o presente, e não soube projetar-se no âmbito da inscrição. Não conseguiu autonomizar-se de um conjunto de curadorias impositivas e não soube potenciar o valor económico que possui. E, muito importante, alienou, em muito, o seu património mais valioso: o conhecimento.

 

São estas comemorações uma oportunidade ímpar para se refletir acerca do trabalho de preservação e valorização que tem sido feito, em torno do cante, e aquele que, desde já, será conveniente fazer?

Regressar ao espírito da convenção e do dossiê apresentado. É daí que devemos partir. Tudo suportado pelo património do cante alentejano.

 

Texto | José Serrano

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