Diário do Alentejo

José Silveira: Missão

14 de março 2020 - 15:30

“A minha infância nunca foi absolutamente livre. Vivíamos na cidade, mas os meus pais e avós tinham dois terços de uma ilha e então, sempre que havia férias íamos para a ilha, e aí sim, estávamos em plena liberdade. Corríamos pelos campos, pelos arrozais, rezávamos para que chovesse nas monções, para podermos andar descalços pela água, trepar pelos montes e subir às árvores. Essa infância, essa liberdade fez com que eu, ao iniciar-me no atletismo, sentisse algo que puxava por mim”.

 

Texto e foto: Fírmino Paixão

 

José Silveira nasceu em Goa, há 70 anos, exatamente no dia 18 de dezembro de 1949. Curiosamente, o mesmo dia, mas do ano de 1961, em que a antiga colónia portuguesa foi invadida pelas forças armadas da União Indiana. “Saí daquele território em 1962. Vim para Portugal com os meus pais e uma avó, éramos nove irmãos. Entretanto, o meu pai foi mobilizado para Moçambique e acabámos por ir todos para lá, em princípios de 1964”, recordou o antigo atleta, docente de Educação Física, já aposentado, e ainda treinador de atletismo que, ao longo dos anos, tem cumprido exemplarmente a missão de partilhar com os jovens os seus conhecimentos de atletismo. Um grupo de jogadores do qual fazia parte o “magriço” Hilário incentivaram-no a jogar futebol: “Os treinos acabavam muito tarde, disseram-me, então, que o professor António Vilela ia criar uma secção de atletismo no Ferroviário de Lourenço Marques, mas eu não sabia nada de atletismo. Iniciei-me oficialmente em 1 de setembro de 1966 como júnior e venci uma prova de 1000m com a camisola do Ferroviário, primeiro e único clube que representei em Moçambique”. Terá sido uma espécie de premonição, sentiu que seria feliz no atletismo: “Quando comecei, gostava de fazer tudo, fazia barreiras, altura, comprimento, só descobri que tinha alguma vocação para o meio- -fundo quando foi a construção do Estádio da Machava, nessa altura Estádio Salazar. O professor Vilela levou-nos para fazermos um corta-mato. Gostei imenso e fiz um bom resultado, duas semanas depois corri uma prova de 700 metros. Saí na pista dois e ouvia a malta toda a gritar, vai à corda, vai à corda. Olhava e não via corda nenhuma… Resultado, faltavam-me para aí uns 100 metros, senti as pernas presas e desisti. Depois é que me explicaram o que era correr na corda”.


DE MOÇAMBIQUE A PORTUGAL


José Silveira contou que começou os estudos num seminário: “O meu pai queria que eu fosse para padre, mas ainda bem que não fui!”. Mas entrou tardiamente na escola e conviveu com colegas mais velhos, com quem aprendeu a fumar: “Fumei bastante, saía de casa, fazia oito quilómetros a pé para ter tempo de fumar e entrava no balneário quase a apagar o cigarro, treinava, acendia outra vez o cigarro e regressava. Era uma coisa brutal. Um dia, o meu treinador encontrou maços de cigarros no meu bolso, soube que eu fumava um maço por dia e que bebia umas imperiais, e então, encostou- me à parede e disse-me: ou deixas isso tudo e fazes atletismo ou deixas o atletismo e continuas a fazer tudo isso”. Aceitou mudar alguns comportamentos: “A minha mãe era enfermeira. Certo dia foi solicitada para ir dar umas injeções a uma senhora que tinha uma doença oncológica e eu fui com ela. E sabe que eu fui a única pessoa que ela reconheceu? Chocou-me de tal forma que nunca mais peguei num cigarro. Senti-me logo outro”. Começaram as vitórias em provas de variada índole, os recordes em diversas distâncias. Silveira era um homem novo, até se muniu de formação adequada para ensinar os jovens das escolas primárias. Entretanto, chegou o serviço militar, a deslocação para Tete e Cabo Delgado, no norte de Moçambique, e a atividade física ficou de lado. Uma vez terminado aquele compromisso, o seu técnico de sempre, António Vilela, ajudou- -o a recuperar a forma: “Em 1974 fiz as minhas melhores marcas, participei, inclusive, nos Jogos Multirraciais, em Pretória (África do Sul), e fiz a melhor marca de Portugal nos 1000 metros. Integrado na seleção nacional, participei em várias provas internacionais, fomos a muitos países porque, nessa altura, Portugal, por ter derrubado o anterior regime, era recebido efusivamente em todo o lado”. Nas vésperas de disputar, com a seleção nacional, um Europeu, em Roma, esteve em provas no norte daquele país e em Tarcísio contraiu uma lesão. Tentou a recuperação no Sporting, mas não foi bem recebido por não ser atleta do clube. Foi ao Benfica, encontrou o Eusébio, seu conterrâneo, que prontamente intercedeu junto do corpo médico encarnado. Mas a paragem era inevitável. Voltou a Moçambique e teve convites para vários projetos, um até o surpreendeu: “Ir buscar a ‘Chama da Liberdade’ ao norte de Moçambique, desde as margens do Rovuma, e, em estafeta com outro colega, trazê-la para sul. Quem me entregou a Chama foi Samora Machel, levámos uns 28 dias a chegar, para darem início aos festejos da independência de Moçambique”. Regressado a Portugal, representou o F.C. Porto, o CDUP, o Olímpico de Lagos, antes de chegar a Beja. Já no Alentejo treinou na Zona Azul, no Sporting de Cuba e no União Beringelense, até ajudar a criação do Juventude Desportiva das Neves, onde ainda hoje forma atletas. “Continuarei enquanto puder transmitir, aos outros, os conhecimentos que tenho, para os miúdos saírem de uma vida sedentária”. E se deixasse escritas todas essas memórias? “Já pensei nisso, mas teria que escrever uma carrada de livros. Mas tem sido um percurso muito gratificante, cheio de muitas lutas, sempre com muito espírito de superação. Enfim, muitos dos que me tentaram deitar abaixo já desistiram, e eu continuo".

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